SPNoRadar

Credenciais de juíza são usadas para alterar cadastro de foragido no sistema do CNJ

Dados de Alex Leandro Bispo dos Santos foram modificados no Banco Nacional de Monitoramento de Prisões, fazendo com que o mandado em aberto deixasse de aparecer nas consultas por cerca de 24 dias.

Redação SPNoRadar

Cadastro de foragido é alterado no sistema do CNJ com credenciais de juíza
Cadastro de foragido é alterado no sistema do CNJ com credenciais de juíza

As credenciais de uma juíza do Rio Grande do Sul foram usadas para alterar os dados de Alex Leandro Bispo dos Santos no Banco Nacional de Monitoramento de Prisões (BNMP), sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Acusado pela polícia de ser o “Escorpião do PCC”, Alex é réu pela morte de Maria Katiane Gomes da Silva e está foragido desde agosto.

Segundo documentos e e-mails trocados internamente no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), o Registro Judiciário Individual (RJI) de Alex foi modificado em 23 de agosto. O cadastro passou a exibir o nome e o CPF de outra pessoa. Com isso, consultas no sistema nacional deixaram de apontar o mandado de prisão em aberto contra ele.

Credenciais teriam sido comprometidas

A alteração foi realizada por meio do perfil da juíza titular da Vara Judicial da Comarca de Planalto, no Rio Grande do Sul. A unidade judicial informou ao TJ-SP que a senha e o acesso da magistrada teriam sido utilizados por terceiros para fazer alterações e emitir documentos de forma fraudulenta.

O caso foi identificado em 16 de setembro, depois que o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e a equipe judiciária encontraram inconsistências no cadastro. O TJ-SP solicitou a correção dos dados e, no dia seguinte, o registro voltou a apresentar a identidade original de Alex e o mandado de prisão pendente.

De acordo com as informações divulgadas, o réu figurou com nome e CPF alterados nas pesquisas policiais por cerca de 24 dias, entre 23 de agosto e 16 de setembro. A alteração prejudicou as buscas pelo foragido no sistema nacional.

O CNJ e o TJ-SP afirmaram que não comentam casos específicos. A defesa de Alex disse que desconhecia a invasão ao sistema e que aguarda o julgamento de um recurso que pede a liberdade do empresário.

Acusação pela morte de Maria Katiane

Alex, de 40 anos, é réu pela morte de Maria Katiane Gomes da Silva, de 25 anos, ocorrida na madrugada de 29 de novembro de 2025, em um prédio na Zona Sul de São Paulo.

Segundo a acusação do MP-SP, ele matou a mulher ao arremessá-la do 10º andar do edifício onde o casal morava. Câmeras de segurança registraram agressões contra Maria Katiane antes da queda. Após a morte, Alex compareceu ao velório e, segundo familiares, afirmou que ela havia caído acidentalmente depois de uma discussão.

Ele foi preso preventivamente em fevereiro de 2026. Em 6 de agosto, a Justiça revogou a prisão após um pedido da defesa, e Alex deixou a cadeia em 10 de agosto. No mesmo dia, o Ministério Público recorreu e obteve, em segunda instância, uma liminar que determinou novamente a prisão preventiva. Como ele já havia sido solto, não foi localizado e passou a ser considerado foragido.

Investigação sobre contrato de internet

Além do processo relacionado à morte de Maria Katiane, Alex é citado em uma investigação sobre um contrato da Prefeitura de São Paulo para a instalação de pontos de internet gratuita.

Ele foi sócio da Favela Conectada Serviços e Tecnologia Ltda., empresa subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) para executar serviços do programa WiFi Livre SP. O ICB tinha um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura para instalar 5 mil pontos de Wi-Fi em comunidades da capital. O acordo é investigado por suspeitas de irregularidades.

Documentos da apuração mostram que o ICB fez pagamentos de R$ 3 milhões à Favela Conectada em junho e julho de 2025. Foram três notas fiscais: duas de R$ 500 mil e uma de R$ 2 milhões. O contrato entre as empresas tinha valor final de R$ 12 milhões.

Alex deixou formalmente o quadro societário da Favela Conectada em janeiro de 2026. Depois, a empresa passou a ser controlada por Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes e mudou de nome para Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda.

A Polícia Civil investiga possíveis irregularidades no contrato do Wi-Fi e suspeitas sobre a destinação dos recursos. A apuração também alcançou empresas subcontratadas. Não há decisão judicial que tenha concluído que Alex participou de eventual desvio de dinheiro público.

Operação e produção de filme

O ICB é comandado pela empresária Karina Ferreira da Gama, também responsável pela produtora Go Up Entertainment, ligada ao filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A relação entre o contrato de Wi-Fi e a produção do filme passou a ser investigada pela Polícia Civil. A suspeita é de que recursos públicos possam ter sido desviados do contrato municipal e usados na produção do longa. Karina nega o uso de dinheiro público brasileiro no filme e afirma que a contratação do ICB pela Prefeitura ocorreu de forma regular.

Em setembro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), para investigar suspeitas envolvendo emendas parlamentares e a produção de “Dark Horse”. Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em quatro estados.

A Prefeitura de São Paulo afirmou que colabora com as investigações e que a contratação do ICB seguiu os princípios de legalidade, transparência e economicidade.

Mais notícias de São Paulo